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09 janeiro 2021

Capacitismo: O que é e como combatê-lo no ambiente escolar?

✎ Por Mayara Gon√ßalves

No meu primeiro artigo aqui no Fala, Pr√ī!, conversamos sobre a import√Ęncia da curiosidade, e l√° eu introduzi um conceito que ainda √© desconhecido por muita gente: o capacitismo. Chegou o momento de falar mais sobre ele, e aproveitar para refletir acerca do papel da escola em sua desconstru√ß√£o.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: Invacare.

Capacitismo √© a discrimina√ß√£o ou viol√™ncias praticadas contra as pessoas com defici√™ncia. √Č a atitude preconceituosa que hierarquiza as pessoas em fun√ß√£o da adequa√ß√£o de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional. Com base no capacitismo, discriminam-se pessoas com defici√™ncia. Trata-se de uma categoria que define a forma como pessoas com defici√™ncia s√£o tratadas como incapazes (incapazes de trabalhar, de frequentar uma escola de ensino regular, de cursar uma universidade, de amar, de sentir desejo, de ter rela√ß√Ķes sexuais etc.), aproximando as demandas dos movimentos de pessoas com defici√™ncia a outras discrimina√ß√Ķes sociais como o sexismo, o racismo e a homofobia. (Inclusive: Inclus√£o e Cidadania)

Segundo essa definição, o capacitismo é basicamente qualquer tipo de "pré-conceito" (no sentido mais profundo da palavra) estabelecido pela sociedade em relação à pessoa com deficiência. Este é um termo tão novo que muita gente reproduz o discurso capacitista sem nem se dar conta. E engana-se quem pensa que apenas as falas que inferiorizam o PCD são capacitistas. O capacitismo também perpassa qualquer discurso de supervalorização da pessoa com deficiência.

O capacitismo na pr√°tica

Voc√™ deve estar se perguntando: “ser√° que eu j√° fui capacitista algum dia?”. E a resposta √©: provavelmente sim (at√© pessoas com defici√™ncia podem interiorizar ou reproduzir o discurso capacitista sem perceber!). Afinal, rotular o diferente √© uma pr√°tica enraizada na sociedade, porque “facilita a compreens√£o” da pluralidade humana. Mas √© a√≠ que mora o perigo! Toda vez que esquecemos de respeitar a individualidade e valorizar a pessoa que h√° por tr√°s da defici√™ncia, corremos o risco de ser capacitistas. Prova disso √© que, em 2016, a comunidade PCD decidiu expor situa√ß√Ķes capacitistas e para isso criou a #√ČCapacitismoQuando. Atrav√©s dela, vimos cenas corriqueiras nas quais infelizmente o capacitismo est√° presente. 

A seguir, alguns exemplos do discurso capacitista e express√Ķes que devem ser abolidas do nosso vocabul√°rio:

O capacitismo no ambiente escolar

Certamente, quando voltamos os olhos para as crian√ßas em idade escolar e analisamos a influ√™ncia do capacitismo em suas forma√ß√Ķes, √© preciso entender que os pequenos t√™m uma forte tend√™ncia √† repeti√ß√£o de comportamento dos adultos. Assim, quando pais, av√≥s, tios ou educadores reproduzem o capacitismo, ela passa a entend√™-lo como algo normal. 

Um experimento realizado pela Naked Heart Fondation provou que, enquanto crianças mais velhas (portanto mais influenciadas pelos adultos) tendem a optar pela interação com crianças sem deficiência, as mais novas se mostram abertas à interagir com PCDs, independente de suas características físicas. Por isso, se eu pudesse dar um conselhos às educadoras, seria: se policiem para não reproduzir o discurso capacitista. Enquanto disseminadoras e facilitadoras da construção do conhecimento, devemos revisitar nossos comportamentos e estar dispostas a transformá-los em prol de uma educação mais inclusiva.

√Č poss√≠vel promover o debate e oferecer viv√™ncias reflexivas a partir da apresenta√ß√£o do Estatuto da Crian√ßa e Adolescente em vers√£o ilustrada (baixe aqui), aproveitando para refor√ßar que os direitos pertencem a todos, e n√£o h√° uma diferencia√ß√£o entre pessoas com e sem defici√™ncia. Al√©m disso, lembrem-se que a crian√ßa com defici√™ncia √© um indiv√≠duo como qualquer outro e, antes de presumir como deve trat√°-lo, leve em conta o que ele diz e saiba que, apesar de suas peculiaridades e das adapta√ß√Ķes que se fazem necess√°rias no dia a dia, muitas regras escolares que valem para crian√ßas sem defici√™ncia, valem para PCDs tamb√©m!

O “tratamento diferenciado” deve existir at√© certo ponto (no que diz respeito principalmente ao conforto f√≠sico e condi√ß√Ķes de aprendizagem adequadas √† defici√™ncia), mas tome cuidado para n√£o infantilizar um indiv√≠duo que n√£o precisa disso. A verdade √© que odiamos ser tratados como “especiais”. Quando era crian√ßa eu n√£o tinha consci√™ncia disso e aproveitava os mimos. Por√©m, uma vez que esse tratamento anda de m√£os dadas com a superprote√ß√£o e a inferioriza√ß√£o, isso impactou bastante na constru√ß√£o da minha autoconfian√ßa e autoestima (haja terapia para nos libertar dos males da sociedade capacitista!).

Quase sempre somos os respons√°veis por surpreender os educadores capacitistas com nossas habilidades, que acabam n√£o sendo esperadas e nem incentivadas pela sociedade. √Äs vezes em que ouvi “Nossa, voc√™ √© inteligente, hein?”, com claro espanto por tais qualidades estarem atreladas a uma cadeirante, nem est√£o no mapa!

Quando o assunto s√£o os pais, uma boa alternativa para promover o di√°logo √© convocar uma reuni√£o e falar um pouco sobre o capacitismo e seus malef√≠cios, aplicando √† realidade da sala de refer√™ncia. Em suma, para uma escola anticapacitista √© preciso: dar espa√ßo e apoio (estrutural, emocional e intelectual) para que as crian√ßas com defici√™ncia se desenvolvam, confiando no processo delas. Sei que toda desconstru√ß√£o leva tempo mas, como em muitos casos, o “trabalho de formiguinha” e autoavalia√ß√£o ajudam bastante na jornada

Em meu pr√≥ximo artigo (que ser√° publicado ainda neste m√™s!), trarei algumas dicas de filmes e s√©ries para curtirmos nessas f√©rias e discutiremos o conceito de cripface! At√© a pr√≥xima! ūüėÄ

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