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Todas as publicações de Reflexões

31 outubro 2023

Viajando pelo Brasil: Meu afastamento e passear como um respiro da rotina

✎ Por Mayara Gonçalves
Mayara Gonçalves em suas aventuras pelo Nordeste e Sul do Brasil!

Se você assistia a Supernatural, deve lembrar que toda recapitulação de temporada ou nova temporada começava assim... Pois bem!

A estrada até aqui!

Durante 2023 estive ausente por alguns meses do Fala, Prô! por questões pessoais. Afinal, o sistema no qual estamos inseridos não perdoa ninguém. Na maior parte do tempo minha cabeça esteve no trabalho que desempenho fora do contexto do nosso blog e nas minhas relações. Além disso, cortei um dobrado (que ainda está em curso) para lidar em terapia com as dores psíquicas, síndrome de impostora e rejeições de todos os tipos - bastante reforçadas diariamente pela nossa estrutura social capacitista, com a qual lido desde a infância. 

Durante boa parte do ano, simplesmente senti que fiz tudo, mas não adiantou nada. Porque ainda estou no mesmo ponto - muito mais calejada, mas ainda assim no mesmo ponto. Sinceramente, não há nada pior do que se saber boa no que faz e em como se relaciona com o mundo e com as pessoas, mas simplesmente se sentir travada no mesmo contexto, na mesma rotina e realidade que te adoece. Quão desafiador é ter que lidar com o tempo que as coisas demoram para mudar. Porque, diferente daquilo que hoje somos levados a acreditar, certas coisas não dependem só de amor, esforço, genialidade e grandes números. No lugar disso, a vida em si precisa de muita paciência, choro, terapia, espera, força para cortar aquilo que não faz mais sentido e uma pitada certeira do famoso QI (Quem Indica). 

Entretanto, ainda estou aqui lutando, tentando achar paz em meio ao caos. Sei que há muito o que fazer, o que resolver na minha vida pessoal e profissional, mas só pensar no não feito é o que me deixa maluca. Então hoje vamos falar do feito. Do feito que sempre me salva e me ajuda a respirar melhor: minhas viagens de férias. Ao escrever essas ultimas palavras, minha cabeça na realidade está assim:

"Meu Deus, só você sabe como eu queria ser rica para tirar um ano sabático, casar com meu noivo e montar minha vida em um lugar lá longe, mais acessível e feliz, com outro rítmo de vida e sem me importar com os problemas que não são meus!"

O problema é que eu não vou ser rica e nem tirar um ano sabático porque estamos no capitalismo selvagem ainda, onde eu sou só um peão que será descartado a qualquer momento. Ninguém se tocou que esse sistema é uma merda e, por isso, vou ter que trocar a roda desse carro com ele andando de novo. Então bora lá! Se dar conta de todo esse caos e ainda assim ver sentido em fazer algo para tentar sair dele é um desafio. Se dar conta de que certas dores sempre vão existir e que vamos senti-las independente do que façamos, também é. Por isso, durante esse ano aprendi que essa minha paixão por viagens talvez seja uma busca, já em curso, por esse lugar de paz. Essa minha paixão por viagens não sou só eu levando minha tristeza, frustrações e não feitos para passear, mas sim eu abrindo minhas próprias portas. 

29 outubro 2022

Eleições 2022: Uma aventura da consciência

✎ Por Mayara Gonçalves

Se tem uma coisa que alguém que vive no Brasil sabe é que este país não é para amadores. Desde 2018 (ou 2016, com o golpe?), as terras Tupiniquins têm experimentado o gosto amargo do fascismo no poder e, com a perspectiva de uma mudança advinda das eleições de 2022, muitas e muitos de nós deixaram a ansiedade negativa de lado para dar lugar à esperança de um país que sai mais uma vez no mapa da fome e volta a abrigar um lugar de destaque por suas políticas educacionais.

Foto por Fernanda Fusco, 2019. Imagem meramente ilustrativa.

Não sei quantas/os de vocês, educadoras e educadores, ficaram surpresas/os com o resultado do primeiro turno das eleições (escrevo esse texto para o Fala, Prô! há um dia do segundo turno), mas quando digo que esse país não é para amadores é porque ele é o único que tem terraplanistas elegendo um astronauta vendedor de travesseiro.

Além disso, tem a candidata a vice-presidente, mulher com deficiência, que não se posiciona quando questionada se deve escolher entre uma pessoa que defendeu todas as políticas de inclusão/humanização de quem é como nós e um genocida que nos apagou do mapa. Até observei como a outra candidata de sua chapa nunca a deixou abrir a boca durante suas campanhas, nem sequer no Dia da Pessoa com Deficiência. Mas depois desse posicionamento dela eu "passei um pano", como dizem os jovens. "Passando pano pra latifundiária agro é pop - nova revelação do centrão brasileiro, Mayara?" Pois é. A que ponto chegamos! 

Eu chamo esses pequenos recortes de representação do Brasil atual que, por vezes, não faz sentido algum. E se eu fosse política, que discurso faria na minha posse? Talvez aquele que salva o coração de muitas e muitos em tempos tão retrógrados como esses. Precisamos de centenas de Éricas, Mônicas, Sônias, Guilhermes e outrEs, gente como a gente, ocupando espaços! Precisamos do povo, desde pequeno, construindo o saber dentro de uma escola centrada nas potencialidades - ao invés de precisar passar seu tempo suplicando aos quatro ventos para que ela continue existindo.

03 setembro 2022

Escola e competências individuais: por que este (não) tem sido o melhor espaço para desenvolvê-las?

✎ Por Mayara Gonçalves

Quantas vezes você já duvidou de si mesma/o? Assim começa o texto que marca o meu retorno ao Fala, Prô! depois de um hiato que teve: pandemia, retomada da vida e uma fugidinha "pras Europas" após de 4 anos sem férias. E por que eu estou contando tudo isso a partir de uma pergunta reflexiva dessas? Porque foi viajando que eu pude pensar sobre essa pergunta.

Toda plena na Rue de la Huchette, em Paris (07/2022). Clique aqui para ver mais!
Desde os tempos da faculdade de design gráfico (na qual me formei em 2014), eu fico me perguntando o quão boa sou no que faço. Apesar de hoje não atuar mais como designer (minha saúde mental agradece!), acredito que tal questionamento seja um resquício das inseguranças que adquiri lá. A viagem foi ainda mais propícia para essa reflexão, pois os lugares que pude visitar foram os mais comentados durante as aulas que eu gostava (história da arte e sociologia salvaram aquela faculdade cheia de egos artísticos prontos para disputar atenção!).

Passei 4 anos da minha vida me perguntando o que eu tinha ido buscar naquele curso, uma vez que a habilidade com o desenho e o atingimento da perfeição digna de grandes obras nunca foram mais do que um sonho de criança (que queria trabalhar na Abril e ser o Maurício de Souza nas horas vagas) totalmente frustrado. Como uma visão de mundo tão diversa poderia caber nisso tudo? Se o tempo todo ouvia de dentro pra fora e de fora pra dentro:

"No meio dessas pessoas você sofre menos se jogar com as artes que já domina: capacidade analítica e escrita. Porque você não é boa nas outras coisas."

Tentando jogar em um campo que me era desconhecido na prática (lápis, aquarela, papel, uma pitada de melancolia e a paciência que até hoje eu não entendo como todo artista tem) aprendi que, diferente do que me disseram, aquele não era lugar de experimentar e ser livre para criar. Aquele era um lugar para aprender a reproduzir padrões.

31 maio 2022

Reality Shows e pessoas com deficiência: por que não ocupamos esses espaços?

✎ Por Mayara Gonçalves

Apesar de dividir as opiniões do público, o Big Brother Brasil ainda é considerado o maior reality show do país, tendo batido recordes de audiência mesmo na sua 22ª edição. Agora você pode estar me perguntando: May, por que vamos falar sobre reality shows em um blog sobre educação? E eu te respondo: cada vez mais esse tipo de programa tem se mostrado como um recorte da sociedade atual, nos ajudando a refletir sobre os diversos comportamentos encontrados por aí.

Cast Offs, série de ficção protagonizada por pessoas com deficiência que satiriza os reality shows

Então me responda sinceramente: quantos participantes com deficiência você já viu neste e em outros reality shows? Com certeza dá para contar nos dedos, né? Aqui no Brasil, por exemplo, Fernando Fernandes de Pádua foi o primeiro apresentador PCD em No Limite; mas enquanto participante, só sei da Marinalva, que é paratleta, modelo, palestrante, teve uma perna amputada e participou do BBB 17 (que eu não assisti). Ela ficou em quinto lugar na edição e, ainda por cima, sofreu várias doses de capacitismo por parte de um dos participantes, como mostra essa matéria, que pontua uma situação onde ela foi chamada de "cavalo manco".

22 novembro 2021

A inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho

✎ Por Mayara Gonçalves
Em meados de 2020, eu escrevi um texto sobre pessoas com deficiência e o mercado de trabalho no meu Linkedin. Naquela ocasião, eu decidi escrever tudo que pensava porque tinha acabado de sofrer um episódio grave de capacitismo por parte de um ex-cliente. Para além de contar sobre o caso (que você pode ler na íntegra aqui), ainda fiz um relato - que infelizmente continua muito atual - sobre como de fato se dava a relação da pessoa com deficiência com o mundo corporativo.  

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: StockSnap.

Por isso, decidi compartilhá-lo aqui com todas as educadoras e os educadores que acompanham o Fala, Prô!. Embora nem tudo neste texto fale do ambiente escolar, certamente os detalhes que o compõe servem como uma aula sobre a importância dos detalhes e da inclusão verdadeira na construção da cidadania. Para além disso, ainda acrescento aqui meu ponto de vista sobre como a escola pode ter um papel decisivo na hora de formar um cidadão (com uma deficiência ou não) que esteja apto para o trabalho. 

Falar sobre inclusão da pessoa com deficiência ainda é um tabu, especialmente porque o Estatuto da Pessoa com Deficiência é relativamente novo. Sancionado em 6 de julho de 2015, o documento assegura os direitos das mais de 45,6 milhões de pessoas que possuem alguma limitação física ou cognitiva no Brasil.

No passado, era incomum notarmos a presença de PCDs em diversas esferas da sociedade. Atualmente, existe um crescente movimento de independência por parte das pessoas com deficiência que, se antes ficavam restritas ao cotidiano de suas casas, hoje estão cada vez mais indo às ruas para atividades ligadas à diversão, estudo e trabalho. Quando o assunto é inclusão no mundo corporativo, constatamos que apenas 1% dos brasileiros que possuem uma deficiência estão empregados em um trabalho formal. Grande parte desse déficit se dá graças ao baixo índice de aplicação das leis que protegem a pessoa com deficiência no país. Diante de dados como esses, vale a pena refletir sobre qual é o papel de cada um perante à inclusão, que deve ser uma luta de todos.

17 outubro 2021

Reflexões sobre a sexualidade da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Para além do ato sexual, falar sobre sexualidade é também falar sobre autoconfiança, diálogo, afeto, respeito e liberdade de ser e sentir. E, assim como isso se aplicaria ao contexto de uma pessoa sem deficiência, se aplica ao contexto PCD.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: Anna Shvets em Pexels.

Exatamente! Abordar o tema da sexualidade relacionado à pessoa com deficiência vai além da curiosidade (muito comum, mas bizarra e capacitista) sobre "como será que aquela pessoa transa?" (ora! como todo mundo!). Assim, entendendo que há várias camadas envolvidas, é preciso dizer que socialmente a relação entre a sexualidade e a pessoa com deficiência foi anulada por muito tempo.  

Trailer de Margarita com canudinho: embora entre na categoria cripface, o filme apresenta a história da indiana Laila, que tem paralisia cerebral, é bissexual e vive uma jornada de autoconhecimento e aceitação

Advindo da infantilização dos corpos, do afeto e do intelecto PCD, este comportamento faz com que nós, que de fato vivemos como alguém com deficiência, passemos por dificuldades na hora de viver a sexualidade. Não dificuldades físicas em si, mas em expressar e classificar a qualidade dos afetos e relações nas quais nos envolvemos. Se eu for falar sobre a quantidade de vezes em que eu me privei de chegar em alguém que eu estava interessada com medo do que a pessoa diria ou de como me trataria exclusivamente por ter um padrão corporal diferente, nós íamos ficar nesse texto até amanhã ou depois de amanhã, minha gente! E sobre aquelas vezes em que ficava alguma coisa no ar, mas não ia para frente por falta de clareza e atitude de ambas as partes… um bom tempo também! E, por fim, se eu for falar em quantas enrascadas abusivas eu me meti e a qualidade das relações que aceitei em minha vida, simplesmente movida pela vontade de "viver alguma coisa diferente de estar sozinha", sem saber classificar a qualidade do afeto e do sexo vivenciado, vixe… até 2050! 

01 julho 2021

A importância de pedir ajuda e de formar "pessoas acessíveis" no ambiente escolar

✎ Por Mayara Gonçalves

Você já parou para pensar sobre a importância de pedir ajuda? Essa é uma coisa que pouca gente faz, e é interessante ter a oportunidade de refletir sobre o assunto enquanto pessoa com deficiência aqui no Fala, Prô!, porque "ser ajudada(o)" faz parte das nossas vidas de maneiras muito peculiares desde a primeira infância.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: PXHere

Seja para facilitar o acesso, simplificar atividades cotidianas ou viabilizar o entendimento de algo, a ajuda sempre estará presente, mesmo que de formas diferentes para cada um de nós. A verdade é que faz parte do senso comum (e capacitista) a máxima de que pessoas com deficiência precisam de "mais ajuda" do que as outras. E, acreditem ou não: quem convive com essa realidade corta um dobrado para estabelecer limites e ressignificar o papel de tantos auxílios em suas vidas. 

23 maio 2021

"Crip Camp" e a existência política da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Sabe aquela recomendação de filme que você recebe de um amigo - e, em uma noite de sábado, decide seguir despretensiosamente -, só que em vez de ser um simples longa metragem se torna um marco em sua vida? Pois foi assim que me senti depois de assistir a Crip Camp: Revolução Pela Inclusão, disponível na Netflix. Prova de sua importância é que foi indicado ao Oscar 2021 e tem como produtores executivos o casal Barack e Michelle Obama! Então, se você não gosta de spoilers, segue a minha dica: vai lá assistir e depois volta para o Fala, Prô!

Cena do documentário Crip Camp disponível na Netflix

O documentário conta a história de um grupo de amigos que se formou em um acampamento de verão chamado Jened. Ele existiu de 1951 a 1977 nos Estados Unidos e tinha a proposta de reunir pessoas com as mais variadas deficiências em uma fazenda - simplesmente para que pudessem curtir a vida longe dos julgamentos da sociedade. A grandeza desse documentário já começa neste ponto: o Jened era um espaço onde, apesar de suas peculiaridades, todos eram iguais, tendo a oportunidade de viver experiências genuínas como qualquer outra pessoa. 

18 abril 2021

A influência do ambiente escolar na construção de autoestima da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Falar de autoestima é também adentrar a complexidade da mente e das relações humanas. Se pararmos para pensar em quando e como ela começa a ser construída, chegaremos à conclusão de que, desde que nascemos, somos influenciados por fatores que vão determinar nosso comportamento e a forma como olhamos para nós mesmos.

Estudantes com deficiência em Tonga, país integrante da Polinésia. Fonte: Flickr

Conversar sobre o assunto é também entender que o significado da palavra autoestima é por vezes simplificado pela sociedade. Diferente do que muitos pensam, ter autoestima não é algo relacionado apenas à estar satisfeito com a própria imagem física - para exemplificar melhor, aqui temos um gráfico. Como vocês sabem, eu não tenho uma formação na área de psicologia. Mas no texto de hoje pretendo refletir, enquanto PCD, sobre o papel da escola na construção da autoestima, sem perder de vista um dos maiores vilões deste contexto: o bullying.

O entendimento do corpo perfeito e o bullying contra a PCD

Apesar de ter dito anteriormente que a noção de autoestima não está relacionada apenas à imagem física, é certo dizer que ela acaba sendo responsável por suscitar as primeiras reflexões sobre o assunto, ainda na infância. É importante lembrar que essa é uma fase onde a personalidade ainda está em formação e é muito influenciada pelas relações externas. Então, se em família ou na escola recebemos críticas sobre alguma característica física ou aprendemos a criticar o outro, acabamos guardando aquilo e tomando como verdade, muitas vezes por um bom tempo de nossas vidas. 

Bullying não! Ser diferente é legal, do Canal da Charlotte

Sabemos que qualquer corpo que seja considerado fora do padrão imposto pela sociedade pode sofrer bullying, justamente porque ela até hoje não se preocupou em incluir, acolher e respeitar a todos, independente de suas características ou condições. Trazendo a reflexão especificamente para o recorte da pessoa com deficiência, a verdade é que sofremos por estar em uma sociedade que ainda orienta suas crianças de maneira capacitista, normalizando esse tipo de conduta. Porque, se crianças com deficiência são ofendidas por causa de uma característica física sobre a qual não têm controle e este ato não é corrigido, elas passam a duvidar das suas capacidades. Assim, para além das questões emocionais, ainda é necessário lidar com a falta de acessibilidade, que agrava a sensação de inferioridade despertada pelo bullying.

25 fevereiro 2021

Estatuto da pessoa com deficiência na escola: reflexões sobre inclusão escolar

✎ Por Mayara Gonçalves

Criado em 6 de julho de 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência vigora desde 2 de janeiro de 2016 e existe para assegurar os direitos do PCD e orientar as demais esferas sociais no desafio de promover a inclusão.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: MedLine Plus.

Quando paramos para pensar nessa questão, a discussão naturalmente se torna mais complexa, especialmente quando olhamos para o contexto escolar. Sobre esse tópico, o Estatuto da Pessoa com Deficiência diz:

A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem. Parágrafo único: É dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da sociedade assegurar educação de qualidade à pessoa com deficiência, colocando-a a salvo de toda forma de violência, negligência e discriminação

Entretanto, apesar de ser repleto de palavras bonitas, o documento (que é espantosamente recente!) não é respeitado. E a raiz disso está na cultura do capacitismo, tão intrínseca ao nosso dia a dia. Afinal, como promover a inclusão em uma sociedade que insiste em “separar” a pessoa com deficiência das demais, por conta de suas características físicas e de uma série de suposições equivocadas e preconceituosas? Como lutar por uma escola inclusiva, quando ainda estamos combatendo retrocessos como o decreto recente da Política Nacional de Educação Especial, que foi revogado pelo STF em dezembro de 2020 e promoveu a segregação da pessoa com deficiência em “salas especiais” dentro do ambiente escolar?

09 janeiro 2021

Capacitismo: O que é e como combatê-lo no ambiente escolar?

✎ Por Mayara Gonçalves

No meu primeiro artigo aqui no Fala, Prô!, conversamos sobre a importância da curiosidade, e lá eu introduzi um conceito que ainda é desconhecido por muita gente: o capacitismo. Chegou o momento de falar mais sobre ele, e aproveitar para refletir acerca do papel da escola em sua desconstrução.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: Invacare.

Capacitismo é a discriminação ou violências praticadas contra as pessoas com deficiência. É a atitude preconceituosa que hierarquiza as pessoas em função da adequação de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional. Com base no capacitismo, discriminam-se pessoas com deficiência. Trata-se de uma categoria que define a forma como pessoas com deficiência são tratadas como incapazes (incapazes de trabalhar, de frequentar uma escola de ensino regular, de cursar uma universidade, de amar, de sentir desejo, de ter relações sexuais etc.), aproximando as demandas dos movimentos de pessoas com deficiência a outras discriminações sociais como o sexismo, o racismo e a homofobia. (Inclusive: Inclusão e Cidadania)

Segundo essa definição, o capacitismo é basicamente qualquer tipo de "pré-conceito" (no sentido mais profundo da palavra) estabelecido pela sociedade em relação à pessoa com deficiência. Este é um termo tão novo que muita gente reproduz o discurso capacitista sem nem se dar conta. E engana-se quem pensa que apenas as falas que inferiorizam o PCD são capacitistas. O capacitismo também perpassa qualquer discurso de supervalorização da pessoa com deficiência.

06 dezembro 2020

Retorno às atividades presenciais: um assunto urgente

✎ Por Ekatherina Ugnivenko

Após aproximadamente oito meses de pandemia no Brasil, o fim do ano se aproxima, assim como o encerramento de um ano letivo desafiador para alunos, famílias e professores. A pandemia ao redor do mundo já matou mais 1,5 milhão de pessoas, fazendo mais de 170 mil vítimas no Brasil. A educação, que é campo de luta e disputa, tornou-se terreno fértil para especulações sobre formatos e medidas necessárias para um retorno seguro às escolas. Contudo, as áreas que realmente deveriam dar suporte para a educação durante os tempos de pandemia estão há muito enfraquecidas, tomadas por discursos pouco propositivos, ou que sugerem soluções rudimentares ou reducionistas.

Crianças em sala de aula - imagem de FreePik

Enquanto exemplos de relativo sucesso para a manutenção do ano letivo de 2020 em outros países poderiam auxiliar a elaboração de modelos adequados para a pluralidade da educação brasileira em 2021, o último mês do ano se iniciou sem que qualquer plano tenha sido divulgado para o ano seguinte. Dentro deste cenário, a disputa se acirra, e um jogo de interesses incita a desunião entre as pessoas envolvidas no processo educativo, afastando a responsabilidade dos órgãos que obrigatoriamente deveriam orquestrar um retorno seguro, e que se eximem de sua obrigação primordial – colocar a educação como prioridade para o ano de 2021 em escala nacional. No caminho oposto, o Ministério da Educação anunciou um corte bilionário para orçamento de 2021.

O assunto é urgente e precisa mobilizar a sociedade como um todo, principalmente os profissionais da educação. Para a elaboração de planos de retorno, além de investimentos massivos na educação pública, é necessário que haja discussão extensiva e contínua sobre o tema, antes que um retorno obrigatório surpreenda professores e alunos. Até o momento, o Ministério da Educação está resistindo em homologar a permissão das aulas remotas em 2021, o que evidencia intenções pouco democráticas acerca de flexibilizações do modelo escolar para que sejam condizentes à evolução da pandemia nas diferentes regiões. 

Destacamos que o Fala, Prô! é contra a volta às aulas enquanto o Brasil for o epicentro da atual pandemia de COVID-19 e não houver um plano bem elaborado para o retorno seguro. Nossas publicações têm como propósito trazer reflexões e sugestões de vivências que contribuam para a realidade de professoras, professores e demais atores do contexto escolar.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS DA ÁREA DA SAÚDE?

É necessária muita cautela ao analisar e utilizar dados sobre a transmissão de Covid-19 em crianças. Na semana passada, um grupo de pediatras brasileiros sugeriu por meio de uma mobilização digital que a atenção pública se voltasse para a reabertura das escolas. A campanha aponta que as crianças se contaminam menos, transmitem menos e manifestam a doença de maneira menos grave. Contudo, é preciso muito cuidado ao concordar com estas afirmações. Os estudos neste sentido ainda são especulativos, pois a experiência em relação ao retorno às aulas ainda está sendo vivida e analisada ao redor do mundo. Além disso, há diferenças socioeconômicas e culturais que impactam na forma como as crianças se relacionam dentro e fora dos muros da escola. Sabemos que quanto menores as crianças, mais próximas são as trocas sociais e menor é o autocontrole sobre suas ações e sobre sua higiene.

02 dezembro 2020

O papel da curiosidade e do educador ativo na vida escolar da criança com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Ao longo da vida passei por vários desafios enquanto pessoa com deficiência. Desde pequena, apesar de não ter muita consciência disso na época, sempre quis entender do que meu corpo era capaz, mesmo sendo diferente dos outros. Brincar na rua, apostar corrida, pular corda, me sujar de terra e fazer coreografias, eram algumas das coisas que mais me encantavam, apesar de eu não executá-las.

Ilustração elaborada por Anex Santis exclusivamente para o Fala, Prô!. Cópia, utilização ou distribuição proibida.

Mesmo encontrando formas mais caseiras de brincar (minhas bonecas diriam que algum dia serei uma excelente mãe!), sempre tive essa curiosidade sobre "o que há lá fora?" e, consequentemente, "o que há aqui dentro, que me impede de viver experiências como aquelas?". Então, ao ser convidada para iniciar meus trabalhos como colaboradora do Fala, Prô!, pensei em resgatar a importância dessa curiosidade na minha vida e propor algumas alternativas para educadoras e educadores que querem estimulá-la em crianças ou adolescentes que tenham uma deficiência.

A importância da curiosidade

Aaaah, a curiosidade! Essa nos leva ao infinito, mesmo que seja fisicamente impossível chegar até lá. Ela nasceu com o ser humano e vai acompanhá-lo até o último segundo de vida, e pouco importa se uma deficiência qualquer entrou na jogada. A curiosidade existe em todos nós e proporciona a evolução. E é preciso dizer: muitas vezes, ela está até mais presente na criança que possui uma deficiência, justamente pela quantidade de privações às quais ela é exposta durante sua infância. Se tem uma coisa que eu aprendi na minha jornada de descoberta, com certeza é: para evoluir, é preciso sentir uma porção de coisas, sejam elas boas ou ruins. E, quando nos divertimos no processo, tudo fica mais legal.

14 novembro 2020

Política na Escola: "Sou professora, mas não discuto política!"

✎ Por Fernanda Fusco

Ao longo de alguns anos, escolhi não me manifestar quando o assunto era política: considerava pouco acessível, não questionava e tinha medo de transparecer a minha ingenuidade e ignorância, deixando os debates para os supostos "eruditos" de plantão (ou papagaios de telejornal?). Mesmo após formações, leituras e pesquisas, acabava optando pelo silêncio, mas desta vez com medo de represálias por conta da minha visão de mundo. Quantas vezes não ouvimos que política não se discute, não é mesmo? Com o passar do tempo, descobri que tudo se discute: depende se você e seus interlocutores estão dispostos a ouvir e compreender! Percebi também o quanto é importante me posicionar politicamente, especialmente por ser educadora e compreender o meu papel na formação de cidadãos críticos, autônomos e emancipados. E, às vésperas das eleições municipais, decidi quebrar meu silêncio: vamos discutir política e pensar sobre o impacto de nossas escolhas? Agradeço inicialmente à professora Nelice Pompeu, que atua na rede pública municipal de São Paulo, está sempre engajada nas questões políticas e sociais e que me deu um empurrãozinho para que este post fosse possível!

Imagem meramente ilustrativa: eleição de representantes da minha turma para o Conselho Mirim (2019)

Veja, política vai muito além de decidir entre esquerda ou direita, consumir notícias da revista semanal, compartilhar memes criticando nosso despresidente ou ter um político de estimação: tudo o que nos rodeia é política! As nossas ações, as nossas escolhas, os nossos relacionamentos e até você, a partir do momento em que pisou nesta Terra (esférica!), é um ser político! Quando nos organizamos nas mais variadas instituições estamos fazendo política, pois pensamos e executamos ações que envolvem (ou deveriam envolver) um bem comum - a quadrinista Racka Abe ilustra alguns exemplos em seu Manual da Vida Adulta, no final deste post.

27 junho 2017

14 conselhos para novos professores

✎ Por Fernanda Fusco
Você finalmente concluiu a sua licenciatura: está com o seu diploma em mãos e apto a "comandar" a sua própria sala de aula. Seja em escolas particulares ou públicas, os desafios que enfrentamos são diários, mas ainda maiores quando somos novos na área e com pouca experiência! Além dos problemas rotineiros e presentes em todas as unidades escolares, a ansiedade e insegurança também nos acompanham no início da carreira!

Em um daqueles momentos em que me lembrava do meu primeiro ano enquanto educadora, resolvi lançar no Facebook a seguinte pergunta para os meus amigos professores:

Aproveite e venha deixar o seu comentário também!

Com base nas respostas, nas minhas memórias e antigos registros, elaborei esta lista com alguns conselhos para você que ingressou há pouco tempo!

1. Observe, ouça e aprenda com toda a equipe da unidade

 

É comum sairmos da licenciatura carregados de uma certa arrogância: por mais que saibamos que a realidade em sala de aula possa ser complicada, achamos que temos todas as respostas e muitas vezes julgamos outros profissionais por cometerem erros que nunca cometeríamos (ou que dizíamos que nunca iríamos cometer). Essa arrogância pode acabar nos isolando e nos cegando em relação às coisas boas que acontecem no dia-a-dia da escola!

Meu primeiro conselho é que abra os olhos, os ouvidos, a cabeça e o coração para as pessoas que fazem a escola ser o que ela é. Converse até mesmo com aqueles profissionais que parecem ter princípios ou concepções muito diferentes das suas: acredite, você vai aprender muito com eles! É conversando e entendendo o ponto de vista do outro (mesmo que nem sempre concorde) que superamos também muitos de nossos preconceitos: no meu caso, o que mais me marcou foi perceber que nem todo professor antigo é ultrapassado, estagnado e sem vontade de aprender - inclusive conheci professores com o pé quase na aposentadoria fazendo o que muito professor novinho não tinha coragem de tentar.

Com o tempo, você vai finalmente perceber que estão todos no mesmo barco e com os mesmos objetivos: cada um tentando alcançar de uma forma, mas o objetivo é sempre o de construir conhecimentos e desenvolver os seus alunos. Quem sabe também não rolam algumas parcerias?

2. Planeje, planeje muito!

  
 
"Cada minuto planejando as atividades que serão propostas garante uma aula muito mais encadeada e tranquila. As crianças sentem quando a aula não foi planejada e o professor está apenas "indo com a maré" e tendem a reagir da mesma forma: com desinteresse, displicência, falta de vontade. Com a internet e um pouco de paciência, é possível encontrar várias ideias criativas e sequencias didáticas super ricas que ajudam muito no planejamento. O planejamento a curto e longo prazo possibilita ter um olhar panorâmico sobre de onde estamos partindo e onde pretendemos chegar. Enfim, é um tempo muito bem gasto, e embora pareça muito difícil no início da vida docente, a prática vai se tornando cada vez mais ágil com a experiência." Conselho da professora Ekatherina Ugnivenko!

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