31 maio 2022

Reality Shows e pessoas com deficiência: por que não ocupamos esses espaços?

Apesar de dividir as opiniões do público, o Big Brother Brasil ainda é considerado o maior reality show do país, tendo batido recordes de audiência mesmo na sua 22ª edição. Agora você pode estar me perguntando: May, por que vamos falar sobre reality shows em um blog sobre educação? E eu te respondo: cada vez mais esse tipo de programa tem se mostrado como um recorte da sociedade atual, nos ajudando a refletir sobre os diversos comportamentos encontrados por aí.

Cast Offs, série de ficção protagonizada por pessoas com deficiência que satiriza os reality shows

Então me responda sinceramente: quantos participantes com deficiência você já viu neste e em outros reality shows? Com certeza dá para contar nos dedos, né? Aqui no Brasil, por exemplo, Fernando Fernandes de Pádua foi o primeiro apresentador PCD em No Limite; mas enquanto participante, só sei da Marinalva, que é paratleta, modelo, palestrante, teve uma perna amputada e participou do BBB 17 (que eu não assisti). Ela ficou em quinto lugar na edição e, ainda por cima, sofreu várias doses de capacitismo por parte de um dos participantes, como mostra essa matéria, que pontua uma situação onde ela foi chamada de "cavalo manco".

Mas se você quer olhar para uma ocorrência mais recente no programa, basta lembrar de quando o participante Caio Afiune, da edição 21, machucou o pé e ficou vários dias andando sem a ajuda de muletas, ou quando teve que tomar banho sentado no chão porque a produção não permitiu que ele usasse uma cadeira da cozinha para auxiliá-lo. Claro que neste caso o participante não se tornou uma pessoa com deficiência a partir dali, porém o mínimo que poderia ter sido feito por ele, não foi (a não ser quando a internet começou a notar a situação e reclamar). 

O participante do BBB 21 Caio Afiune tomando banho sentado no chão

Não é de hoje que a presença de pessoas com deficiência em reality shows é questionada pelos telespectadores. E a verdade é que assim como no mundo real, este tipo de programa não está preparado para pessoas como nós - seja para ver-nos como indivíduos tão competitivos quanto aqueles que não possuem uma deficiência ou para possibilitar nosso livre acesso dentro da casa/durante as provas. Particularmente, tenho ficado muito feliz porque durante as minhas espiadinhas na edição deste ano, sempre via a Linn da Quebrada trazendo questionamentos que incluem pessoas com deficiência, como este: 

Certamente, este é mais um dos trabalhos de formiguinha que precisamos fazer para ocupar espaços que podem ser nossos dentro da casa mais vigiada do Brasil, né? Mas enquanto este dia não chega, a verdade das pessoas com deficiência no BBB foi bem retratada pela influenciadora Lelê Martins:

Mas e os reality shows protagonizados apenas por pessoas com deficiência?

Para além dos questionamentos relacionados à inclusão das pessoas com deficiência em realities, temos também um ponto para o qual poucas pessoas já olharam. Existem vários programas focados no cotidiano PCD, porém será que o roteiro deles está sendo escrito com cuidado? Quando vejo shows no estilo de A Pequena Grande Família, que retrata a vida de uma família composta por pessoas com nanismo, sempre me sinto assistindo a materialização daquele meme do Globo Repórter: "Quem são? O que fazem? Onde vivem?".

A Pequena Grande Família, reality da TLC

Outro questionamento que aparece sempre quando assisto realities românticos envolvendo pessoas com deficiência é: Por que esses programas só juntam PCDs com outros PCDs -  como a série Amor no Espectro da Netflix? A forma como os relacionamentos são construídos socialmente precisa ser questionada pela grande mídia. Programas assim merecem seu espaço, mas precisam ser assistidos com um olhar crítico. Afinal, por que limitar o olhar à máxima do "consigo me relacionar apenas com pessoas que têm uma deficiência como eu"?

Além disso, falhas de roteiro permite que séries como The Undateables (Os Inamoráveis), que tem 11 temporadas e retrata a vida amorosa de pessoas com deficiência em busca de relacionamento, aconteçam: 

Em outras palavras, como um reality que se propõe a falar sobre um universo muitas vezes novo para quem nunca conviveu ou se relacionou com uma pessoa com deficiência, pode reforçar o rótulo do inamorável?

E há alguma boa indicação sobre o tema?

De todos os programas que eu já assisti, recomendo Deaf U (Além do Som) da Netflix, que retrata o cotidiano de pessoas surdas na primeira e única escola superior totalmente em libras do mundo. Apesar de retratar a vida de um grupo bem específico, o programa tem aquela vibe divertida e descolada comum a todo jovem universitário e rolezeiro. 

Por último, vou deixar aqui uma indicação que eu também quero assistir: Cast Offs é uma mistura de reality com ficção criada pela TV britânica, que retrata pessoas com diversas deficiências em um programa no estilo sobrevivência.

Depois de pensar sobre este assunto, o grande questionamento que consigo responder é: qual realidade a maioria dos programas como esses resolveram retratar? Certamente a capacitista, que acaba sendo a mais irreal de todas, especialmente quando olhamos para as verdadeiramente capacidades das pessoas com deficiência.



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