.
Todas as publicações de Inclusão

27 abril 2024

Relato de prática: Dei a primeira aula da minha vida!

✎ Por Mayara Gonçalves
Depois de tanto tempo amando o universo da pedagogia e absorvendo tanto aprendizado através da convivência com muitos profissionais formados na área - a ponto de até ganhar o privilégio de poder escrever no Fala, Prô! sobre minhas vivências enquanto pessoa com deficiência -, eu dei minha primeira aula. Não do jeito tradicional, mas a partir dos meus aprendizados em um curso superior direcionado e depois de várias experiências em estágios. De um jeito diferente, como tudo que rola na minha vida.


Dois mil e vinte e três foi um ano super movimentado fisicamente (aaah, minhas viagens…) e psicologicamente (só a terapeuta sabe como tá a mente da palhaça 🤡). Seus meses finais fizeram questão de me reservar uma grata surpresa que vou compartilhar com você hoje!

31 outubro 2023

Viajando pelo Brasil: Meu afastamento e passear como um respiro da rotina

✎ Por Mayara Gonçalves
Mayara Gonçalves em suas aventuras pelo Nordeste e Sul do Brasil!

Se você assistia a Supernatural, deve lembrar que toda recapitulação de temporada ou nova temporada começava assim... Pois bem!

A estrada até aqui!

Durante 2023 estive ausente por alguns meses do Fala, Prô! por questões pessoais. Afinal, o sistema no qual estamos inseridos não perdoa ninguém. Na maior parte do tempo minha cabeça esteve no trabalho que desempenho fora do contexto do nosso blog e nas minhas relações. Além disso, cortei um dobrado (que ainda está em curso) para lidar em terapia com as dores psíquicas, síndrome de impostora e rejeições de todos os tipos - bastante reforçadas diariamente pela nossa estrutura social capacitista, com a qual lido desde a infância. 

Durante boa parte do ano, simplesmente senti que fiz tudo, mas não adiantou nada. Porque ainda estou no mesmo ponto - muito mais calejada, mas ainda assim no mesmo ponto. Sinceramente, não há nada pior do que se saber boa no que faz e em como se relaciona com o mundo e com as pessoas, mas simplesmente se sentir travada no mesmo contexto, na mesma rotina e realidade que te adoece. Quão desafiador é ter que lidar com o tempo que as coisas demoram para mudar. Porque, diferente daquilo que hoje somos levados a acreditar, certas coisas não dependem só de amor, esforço, genialidade e grandes números. No lugar disso, a vida em si precisa de muita paciência, choro, terapia, espera, força para cortar aquilo que não faz mais sentido e uma pitada certeira do famoso QI (Quem Indica). 

Entretanto, ainda estou aqui lutando, tentando achar paz em meio ao caos. Sei que há muito o que fazer, o que resolver na minha vida pessoal e profissional, mas só pensar no não feito é o que me deixa maluca. Então hoje vamos falar do feito. Do feito que sempre me salva e me ajuda a respirar melhor: minhas viagens de férias. Ao escrever essas ultimas palavras, minha cabeça na realidade está assim:

"Meu Deus, só você sabe como eu queria ser rica para tirar um ano sabático, casar com meu noivo e montar minha vida em um lugar lá longe, mais acessível e feliz, com outro rítmo de vida e sem me importar com os problemas que não são meus!"

O problema é que eu não vou ser rica e nem tirar um ano sabático porque estamos no capitalismo selvagem ainda, onde eu sou só um peão que será descartado a qualquer momento. Ninguém se tocou que esse sistema é uma merda e, por isso, vou ter que trocar a roda desse carro com ele andando de novo. Então bora lá! Se dar conta de todo esse caos e ainda assim ver sentido em fazer algo para tentar sair dele é um desafio. Se dar conta de que certas dores sempre vão existir e que vamos senti-las independente do que façamos, também é. Por isso, durante esse ano aprendi que essa minha paixão por viagens talvez seja uma busca, já em curso, por esse lugar de paz. Essa minha paixão por viagens não sou só eu levando minha tristeza, frustrações e não feitos para passear, mas sim eu abrindo minhas próprias portas. 

03 março 2023

Incluir X Acolher: O que a sociedade tem a ver com isso?

✎ Por Mayara Gonçalves
Imagem meramente ilustrativa gerada pela inteligência artificial MidJourney para o Fala, Prô!


Segundo o Ministério da Saúde, “acolhimento” significa:

Uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, uma atitude de inclusão. Essa atitude implica, por sua vez, estar em relação com algo ou alguém. (Acolhimento nas práticas de produção de saúde, 2010)

Na prática, acolher alguém em determinado grupo social sempre foi um ato de identificação física e psicológica. Um movimento de impacto visual e mental para entender que aquele ser ao lado faz parte do grupo: quem acolhe sempre busca por semelhanças com a pessoa acolhida, usando-as como base para aprofundar a conexão e, a partir daí, identificar as diferenças, respeitá-las e fazer o manejo da relação.

Em todos os âmbitos sociais o acolhimento faz a diferença pois o/a indivíduo/a precisa do convívio com demais pessoas para ter o seu desenvolvimento social, psíquico e motor assegurado. Assim, quando olhamos mais de perto para o recorte do acolhimento da pessoa com deficiência no âmbito escolar, temos um convite aberto para ampliar a visão e perceber quais são os principais desafios relacionados a este assunto. 

29 outubro 2022

Eleições 2022: Uma aventura da consciência

✎ Por Mayara Gonçalves

Se tem uma coisa que alguém que vive no Brasil sabe é que este país não é para amadores. Desde 2018 (ou 2016, com o golpe?), as terras Tupiniquins têm experimentado o gosto amargo do fascismo no poder e, com a perspectiva de uma mudança advinda das eleições de 2022, muitas e muitos de nós deixaram a ansiedade negativa de lado para dar lugar à esperança de um país que sai mais uma vez no mapa da fome e volta a abrigar um lugar de destaque por suas políticas educacionais.

Foto por Fernanda Fusco, 2019. Imagem meramente ilustrativa.

Não sei quantas/os de vocês, educadoras e educadores, ficaram surpresas/os com o resultado do primeiro turno das eleições (escrevo esse texto para o Fala, Prô! há um dia do segundo turno), mas quando digo que esse país não é para amadores é porque ele é o único que tem terraplanistas elegendo um astronauta vendedor de travesseiro.

Além disso, tem a candidata a vice-presidente, mulher com deficiência, que não se posiciona quando questionada se deve escolher entre uma pessoa que defendeu todas as políticas de inclusão/humanização de quem é como nós e um genocida que nos apagou do mapa. Até observei como a outra candidata de sua chapa nunca a deixou abrir a boca durante suas campanhas, nem sequer no Dia da Pessoa com Deficiência. Mas depois desse posicionamento dela eu "passei um pano", como dizem os jovens. "Passando pano pra latifundiária agro é pop - nova revelação do centrão brasileiro, Mayara?" Pois é. A que ponto chegamos! 

Eu chamo esses pequenos recortes de representação do Brasil atual que, por vezes, não faz sentido algum. E se eu fosse política, que discurso faria na minha posse? Talvez aquele que salva o coração de muitas e muitos em tempos tão retrógrados como esses. Precisamos de centenas de Éricas, Mônicas, Sônias, Guilhermes e outrEs, gente como a gente, ocupando espaços! Precisamos do povo, desde pequeno, construindo o saber dentro de uma escola centrada nas potencialidades - ao invés de precisar passar seu tempo suplicando aos quatro ventos para que ela continue existindo.

03 setembro 2022

Escola e competências individuais: por que este (não) tem sido o melhor espaço para desenvolvê-las?

✎ Por Mayara Gonçalves

Quantas vezes você já duvidou de si mesma/o? Assim começa o texto que marca o meu retorno ao Fala, Prô! depois de um hiato que teve: pandemia, retomada da vida e uma fugidinha "pras Europas" após de 4 anos sem férias. E por que eu estou contando tudo isso a partir de uma pergunta reflexiva dessas? Porque foi viajando que eu pude pensar sobre essa pergunta.

Toda plena na Rue de la Huchette, em Paris (07/2022). Clique aqui para ver mais!
Desde os tempos da faculdade de design gráfico (na qual me formei em 2014), eu fico me perguntando o quão boa sou no que faço. Apesar de hoje não atuar mais como designer (minha saúde mental agradece!), acredito que tal questionamento seja um resquício das inseguranças que adquiri lá. A viagem foi ainda mais propícia para essa reflexão, pois os lugares que pude visitar foram os mais comentados durante as aulas que eu gostava (história da arte e sociologia salvaram aquela faculdade cheia de egos artísticos prontos para disputar atenção!).

Passei 4 anos da minha vida me perguntando o que eu tinha ido buscar naquele curso, uma vez que a habilidade com o desenho e o atingimento da perfeição digna de grandes obras nunca foram mais do que um sonho de criança (que queria trabalhar na Abril e ser o Maurício de Souza nas horas vagas) totalmente frustrado. Como uma visão de mundo tão diversa poderia caber nisso tudo? Se o tempo todo ouvia de dentro pra fora e de fora pra dentro:

"No meio dessas pessoas você sofre menos se jogar com as artes que já domina: capacidade analítica e escrita. Porque você não é boa nas outras coisas."

Tentando jogar em um campo que me era desconhecido na prática (lápis, aquarela, papel, uma pitada de melancolia e a paciência que até hoje eu não entendo como todo artista tem) aprendi que, diferente do que me disseram, aquele não era lugar de experimentar e ser livre para criar. Aquele era um lugar para aprender a reproduzir padrões.

31 maio 2022

Reality Shows e pessoas com deficiência: por que não ocupamos esses espaços?

✎ Por Mayara Gonçalves

Apesar de dividir as opiniões do público, o Big Brother Brasil ainda é considerado o maior reality show do país, tendo batido recordes de audiência mesmo na sua 22ª edição. Agora você pode estar me perguntando: May, por que vamos falar sobre reality shows em um blog sobre educação? E eu te respondo: cada vez mais esse tipo de programa tem se mostrado como um recorte da sociedade atual, nos ajudando a refletir sobre os diversos comportamentos encontrados por aí.

Cast Offs, série de ficção protagonizada por pessoas com deficiência que satiriza os reality shows

Então me responda sinceramente: quantos participantes com deficiência você já viu neste e em outros reality shows? Com certeza dá para contar nos dedos, né? Aqui no Brasil, por exemplo, Fernando Fernandes de Pádua foi o primeiro apresentador PCD em No Limite; mas enquanto participante, só sei da Marinalva, que é paratleta, modelo, palestrante, teve uma perna amputada e participou do BBB 17 (que eu não assisti). Ela ficou em quinto lugar na edição e, ainda por cima, sofreu várias doses de capacitismo por parte de um dos participantes, como mostra essa matéria, que pontua uma situação onde ela foi chamada de "cavalo manco".

22 novembro 2021

A inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho

✎ Por Mayara Gonçalves
Em meados de 2020, eu escrevi um texto sobre pessoas com deficiência e o mercado de trabalho no meu Linkedin. Naquela ocasião, eu decidi escrever tudo que pensava porque tinha acabado de sofrer um episódio grave de capacitismo por parte de um ex-cliente. Para além de contar sobre o caso (que você pode ler na íntegra aqui), ainda fiz um relato - que infelizmente continua muito atual - sobre como de fato se dava a relação da pessoa com deficiência com o mundo corporativo.  

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: StockSnap.

Por isso, decidi compartilhá-lo aqui com todas as educadoras e os educadores que acompanham o Fala, Prô!. Embora nem tudo neste texto fale do ambiente escolar, certamente os detalhes que o compõe servem como uma aula sobre a importância dos detalhes e da inclusão verdadeira na construção da cidadania. Para além disso, ainda acrescento aqui meu ponto de vista sobre como a escola pode ter um papel decisivo na hora de formar um cidadão (com uma deficiência ou não) que esteja apto para o trabalho. 

Falar sobre inclusão da pessoa com deficiência ainda é um tabu, especialmente porque o Estatuto da Pessoa com Deficiência é relativamente novo. Sancionado em 6 de julho de 2015, o documento assegura os direitos das mais de 45,6 milhões de pessoas que possuem alguma limitação física ou cognitiva no Brasil.

No passado, era incomum notarmos a presença de PCDs em diversas esferas da sociedade. Atualmente, existe um crescente movimento de independência por parte das pessoas com deficiência que, se antes ficavam restritas ao cotidiano de suas casas, hoje estão cada vez mais indo às ruas para atividades ligadas à diversão, estudo e trabalho. Quando o assunto é inclusão no mundo corporativo, constatamos que apenas 1% dos brasileiros que possuem uma deficiência estão empregados em um trabalho formal. Grande parte desse déficit se dá graças ao baixo índice de aplicação das leis que protegem a pessoa com deficiência no país. Diante de dados como esses, vale a pena refletir sobre qual é o papel de cada um perante à inclusão, que deve ser uma luta de todos.

17 outubro 2021

Reflexões sobre a sexualidade da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Para além do ato sexual, falar sobre sexualidade é também falar sobre autoconfiança, diálogo, afeto, respeito e liberdade de ser e sentir. E, assim como isso se aplicaria ao contexto de uma pessoa sem deficiência, se aplica ao contexto PCD.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: Anna Shvets em Pexels.

Exatamente! Abordar o tema da sexualidade relacionado à pessoa com deficiência vai além da curiosidade (muito comum, mas bizarra e capacitista) sobre "como será que aquela pessoa transa?" (ora! como todo mundo!). Assim, entendendo que há várias camadas envolvidas, é preciso dizer que socialmente a relação entre a sexualidade e a pessoa com deficiência foi anulada por muito tempo.  

Trailer de Margarita com canudinho: embora entre na categoria cripface, o filme apresenta a história da indiana Laila, que tem paralisia cerebral, é bissexual e vive uma jornada de autoconhecimento e aceitação

Advindo da infantilização dos corpos, do afeto e do intelecto PCD, este comportamento faz com que nós, que de fato vivemos como alguém com deficiência, passemos por dificuldades na hora de viver a sexualidade. Não dificuldades físicas em si, mas em expressar e classificar a qualidade dos afetos e relações nas quais nos envolvemos. Se eu for falar sobre a quantidade de vezes em que eu me privei de chegar em alguém que eu estava interessada com medo do que a pessoa diria ou de como me trataria exclusivamente por ter um padrão corporal diferente, nós íamos ficar nesse texto até amanhã ou depois de amanhã, minha gente! E sobre aquelas vezes em que ficava alguma coisa no ar, mas não ia para frente por falta de clareza e atitude de ambas as partes… um bom tempo também! E, por fim, se eu for falar em quantas enrascadas abusivas eu me meti e a qualidade das relações que aceitei em minha vida, simplesmente movida pela vontade de "viver alguma coisa diferente de estar sozinha", sem saber classificar a qualidade do afeto e do sexo vivenciado, vixe… até 2050! 

12 setembro 2021

Acessibilidade e representatividade no brincar da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Quando pensamos na infância, entendemos que essa é uma fase importantíssima para a construção da autoestima, do caráter e do saber de um indivíduo. Assim, é comum que educadoras, educadores e familiares ensinem novos conceitos através das brincadeiras. Afinal, é através das brincadeiras e das interações que as crianças desenvolvem-se integralmente, constroem seus conhecimentos e estabelecem as próprias associações.

Bonecas e bonecos do projeto Amigos da Inclusão, por Cristiane Mendonça. Fonte: Rio de Boas Notícias.

Com base nisso, hoje podemos perceber a forte tendência da gamificação do ensino, que propõe trazer metodologias lúdicas, inclusive para alunos com mais idade. Porém, pouco se fala sobre a importância da acessibilidade e da representatividade no “aprender brincando”, quando aplicado às pessoas com deficiências: e é sobre isso que vamos refletir hoje no Fala, Prô!

05 agosto 2021

Olimpíadas e Paralimpíadas de Tóquio: Refletindo sobre a Educação Física Adaptada nas escolas brasileiras

✎ Por Mayara Gonçalves

Eu sempre amei assistir às competições olímpicas por envolverem muitos países e culturas diferentes. Até hoje minha TV fica sintonizada nos canais de esportes o dia todo para espiar as competições durante esse período (aliás, estou triste por não poder trocar a noite pelo dia e acompanhar tudo ao vivo nesta edição!). Para completar, recentemente comecei a acompanhar a NBA (onde cada jogo é um verdadeiro show de adrenalina) e isso me fez refletir bastante sobre a minha relação com o esporte enquanto pessoa com deficiência e, principalmente, sobre o modo como ele é introduzido na vida escolar da criança. Assim, é sobre isso que vamos falar no texto de hoje!

Basquete na Paralímpiadas Rio 2016. Foto da Secretaria Especial do Esporte.

No fim dos anos 90 eu estudava na AACD, onde tínhamos aulas de Educação Física Adaptada. Lá o que importava era não ficar parado. A maioria das crianças ia para o chão da sala de aula participar das atividades: vólei com bexiga, handball (com aqueles gols pequenos que conseguimos colocar no chão) e muito mais! Era super divertido!

Inclusive em um desses anos, até fui participar de um campeonato amador que foi disputado entre alunos da AACD e do Lar Escola São Francisco (não lembro se outras escolas participaram) no Clube Ipê. Nele, meu time foi medalha de ouro no vôlei com bexiga e, até hoje, lembro de flashes nossos marcando os pontos e conto essa história para todo mundo.

01 julho 2021

A importância de pedir ajuda e de formar "pessoas acessíveis" no ambiente escolar

✎ Por Mayara Gonçalves

Você já parou para pensar sobre a importância de pedir ajuda? Essa é uma coisa que pouca gente faz, e é interessante ter a oportunidade de refletir sobre o assunto enquanto pessoa com deficiência aqui no Fala, Prô!, porque "ser ajudada(o)" faz parte das nossas vidas de maneiras muito peculiares desde a primeira infância.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: PXHere

Seja para facilitar o acesso, simplificar atividades cotidianas ou viabilizar o entendimento de algo, a ajuda sempre estará presente, mesmo que de formas diferentes para cada um de nós. A verdade é que faz parte do senso comum (e capacitista) a máxima de que pessoas com deficiência precisam de "mais ajuda" do que as outras. E, acreditem ou não: quem convive com essa realidade corta um dobrado para estabelecer limites e ressignificar o papel de tantos auxílios em suas vidas. 

23 maio 2021

"Crip Camp" e a existência política da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Sabe aquela recomendação de filme que você recebe de um amigo - e, em uma noite de sábado, decide seguir despretensiosamente -, só que em vez de ser um simples longa metragem se torna um marco em sua vida? Pois foi assim que me senti depois de assistir a Crip Camp: Revolução Pela Inclusão, disponível na Netflix. Prova de sua importância é que foi indicado ao Oscar 2021 e tem como produtores executivos o casal Barack e Michelle Obama! Então, se você não gosta de spoilers, segue a minha dica: vai lá assistir e depois volta para o Fala, Prô!

Cena do documentário Crip Camp disponível na Netflix

O documentário conta a história de um grupo de amigos que se formou em um acampamento de verão chamado Jened. Ele existiu de 1951 a 1977 nos Estados Unidos e tinha a proposta de reunir pessoas com as mais variadas deficiências em uma fazenda - simplesmente para que pudessem curtir a vida longe dos julgamentos da sociedade. A grandeza desse documentário já começa neste ponto: o Jened era um espaço onde, apesar de suas peculiaridades, todos eram iguais, tendo a oportunidade de viver experiências genuínas como qualquer outra pessoa. 

18 abril 2021

A influência do ambiente escolar na construção de autoestima da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Falar de autoestima é também adentrar a complexidade da mente e das relações humanas. Se pararmos para pensar em quando e como ela começa a ser construída, chegaremos à conclusão de que, desde que nascemos, somos influenciados por fatores que vão determinar nosso comportamento e a forma como olhamos para nós mesmos.

Estudantes com deficiência em Tonga, país integrante da Polinésia. Fonte: Flickr

Conversar sobre o assunto é também entender que o significado da palavra autoestima é por vezes simplificado pela sociedade. Diferente do que muitos pensam, ter autoestima não é algo relacionado apenas à estar satisfeito com a própria imagem física - para exemplificar melhor, aqui temos um gráfico. Como vocês sabem, eu não tenho uma formação na área de psicologia. Mas no texto de hoje pretendo refletir, enquanto PCD, sobre o papel da escola na construção da autoestima, sem perder de vista um dos maiores vilões deste contexto: o bullying.

O entendimento do corpo perfeito e o bullying contra a PCD

Apesar de ter dito anteriormente que a noção de autoestima não está relacionada apenas à imagem física, é certo dizer que ela acaba sendo responsável por suscitar as primeiras reflexões sobre o assunto, ainda na infância. É importante lembrar que essa é uma fase onde a personalidade ainda está em formação e é muito influenciada pelas relações externas. Então, se em família ou na escola recebemos críticas sobre alguma característica física ou aprendemos a criticar o outro, acabamos guardando aquilo e tomando como verdade, muitas vezes por um bom tempo de nossas vidas. 

Bullying não! Ser diferente é legal, do Canal da Charlotte

Sabemos que qualquer corpo que seja considerado fora do padrão imposto pela sociedade pode sofrer bullying, justamente porque ela até hoje não se preocupou em incluir, acolher e respeitar a todos, independente de suas características ou condições. Trazendo a reflexão especificamente para o recorte da pessoa com deficiência, a verdade é que sofremos por estar em uma sociedade que ainda orienta suas crianças de maneira capacitista, normalizando esse tipo de conduta. Porque, se crianças com deficiência são ofendidas por causa de uma característica física sobre a qual não têm controle e este ato não é corrigido, elas passam a duvidar das suas capacidades. Assim, para além das questões emocionais, ainda é necessário lidar com a falta de acessibilidade, que agrava a sensação de inferioridade despertada pelo bullying.

01 abril 2021

A dança como recurso de aprendizado escolar e apropriação do corpo no contexto da pessoa com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Hoje é dia de abordar um assunto muito legal aqui no Fala, Prô! A dança é uma incrível forma de expressão dos seres humanos e fala muito sobre a cultura e sobre o modo como lidamos com nossos corpos em um contexto social.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: Cliff Booth no Pexels.

Gosto de pensar na dança como uma extensão da revolução que a música faz em nossos corações. Prova disso é que todo mundo já se empolgou ao ouvir uma música que gosta e começou, pelo menos, a bater o pezinho debaixo da mesa, né? Assim, é interessante pensar em como o hábito de dançar impacta no processo de apropriação do corpo e aprendizagem escolar da pessoa com deficiência. 

Desmistificando a dança no contexto da PCD

Neste momento pode passar pela sua cabeça a seguinte questão: “Mas pessoas com deficiência podem dançar?” e a resposta é SIM! Pessoas com qualquer tipo de deficiência podem “mexer seus esqueletos”. Há quem fique surpreso com esta afirmação, já que não é comum encontrar PCDs dançando em festas, baladas e bares (fruto do horrível e velho capacitismo, infelizmente!), mas muitas pessoas com deficiência amam dançar e, mais importante que isso: cada uma dança do seu jeito!

Clipe da música Novo Normal, do DJ Dennis, com a participação de Vanessa Andressa e Pequena Lo

A questão aqui é que muitos PCDs nem sabem que gostam de dançar. Afinal, numa sociedade padronizada, acabamos nos fixando em certos movimentos de dança entendidos como “bonitos” e “adequados” para essa atividade. Assim, perdemos toda a magia da experimentação que mora no ato de dançar. Eu mesma só descobri que gosto de dançar (do meu jeito) há uns 3 anos, quando comecei a sair mais com amigos. Isso foi muito valioso porque me reconectou com algo que eu já tinha desde pequena, mas de uma forma diferente. 

25 fevereiro 2021

Estatuto da pessoa com deficiência na escola: reflexões sobre inclusão escolar

✎ Por Mayara Gonçalves

Criado em 6 de julho de 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência vigora desde 2 de janeiro de 2016 e existe para assegurar os direitos do PCD e orientar as demais esferas sociais no desafio de promover a inclusão.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: MedLine Plus.

Quando paramos para pensar nessa questão, a discussão naturalmente se torna mais complexa, especialmente quando olhamos para o contexto escolar. Sobre esse tópico, o Estatuto da Pessoa com Deficiência diz:

A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem. Parágrafo único: É dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da sociedade assegurar educação de qualidade à pessoa com deficiência, colocando-a a salvo de toda forma de violência, negligência e discriminação

Entretanto, apesar de ser repleto de palavras bonitas, o documento (que é espantosamente recente!) não é respeitado. E a raiz disso está na cultura do capacitismo, tão intrínseca ao nosso dia a dia. Afinal, como promover a inclusão em uma sociedade que insiste em “separar” a pessoa com deficiência das demais, por conta de suas características físicas e de uma série de suposições equivocadas e preconceituosas? Como lutar por uma escola inclusiva, quando ainda estamos combatendo retrocessos como o decreto recente da Política Nacional de Educação Especial, que foi revogado pelo STF em dezembro de 2020 e promoveu a segregação da pessoa com deficiência em “salas especiais” dentro do ambiente escolar?

20 janeiro 2021

A mídia anticapacitista: Produções audiovisuais protagonizadas por pessoas com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Aproveitando o clima de férias, resolvi assistir filmes, documentários e séries que abordam a temática da pessoa com deficiência para ajudar os educadores e educadoras a construírem uma base melhor sobre o assunto. Afinal, quem está em busca de melhoras em sua prática de ensino precisa ir atrás de informação de qualidade, né?

Quando a mídia escolhe retratar a vida de uma pessoa com deficiência, deve fazer isso de modo a contribuir para a humanização da PCD e não para reforçar estereótipos capacitistas (conheça mais sobre o termo neste post). Muitas produções têm surgido nos cinemas e nos grandes streamings sobre o assunto, e isso é muito legal - porque até alguns anos atrás era algo impensável. 

Você pode até se lembrar daquela novela Viver a Vida (que foi ao ar na Globo em 2009 e tinha a atriz Aline Moraes como tetraplégica) e falar: “esse foi meu primeiro contato com um relato anticapacitista!”... Mas não foi! Por isso, ao procurar material sobre o assunto, descartei todas as referências que apelam para a questão da superação e preferi algo mais próximo do real. 

09 janeiro 2021

Capacitismo: O que é e como combatê-lo no ambiente escolar?

✎ Por Mayara Gonçalves

No meu primeiro artigo aqui no Fala, Prô!, conversamos sobre a importância da curiosidade, e lá eu introduzi um conceito que ainda é desconhecido por muita gente: o capacitismo. Chegou o momento de falar mais sobre ele, e aproveitar para refletir acerca do papel da escola em sua desconstrução.

Imagem meramente ilustrativa. Fonte: Invacare.

Capacitismo é a discriminação ou violências praticadas contra as pessoas com deficiência. É a atitude preconceituosa que hierarquiza as pessoas em função da adequação de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional. Com base no capacitismo, discriminam-se pessoas com deficiência. Trata-se de uma categoria que define a forma como pessoas com deficiência são tratadas como incapazes (incapazes de trabalhar, de frequentar uma escola de ensino regular, de cursar uma universidade, de amar, de sentir desejo, de ter relações sexuais etc.), aproximando as demandas dos movimentos de pessoas com deficiência a outras discriminações sociais como o sexismo, o racismo e a homofobia. (Inclusive: Inclusão e Cidadania)

Segundo essa definição, o capacitismo é basicamente qualquer tipo de "pré-conceito" (no sentido mais profundo da palavra) estabelecido pela sociedade em relação à pessoa com deficiência. Este é um termo tão novo que muita gente reproduz o discurso capacitista sem nem se dar conta. E engana-se quem pensa que apenas as falas que inferiorizam o PCD são capacitistas. O capacitismo também perpassa qualquer discurso de supervalorização da pessoa com deficiência.

02 dezembro 2020

O papel da curiosidade e do educador ativo na vida escolar da criança com deficiência

✎ Por Mayara Gonçalves

Ao longo da vida passei por vários desafios enquanto pessoa com deficiência. Desde pequena, apesar de não ter muita consciência disso na época, sempre quis entender do que meu corpo era capaz, mesmo sendo diferente dos outros. Brincar na rua, apostar corrida, pular corda, me sujar de terra e fazer coreografias, eram algumas das coisas que mais me encantavam, apesar de eu não executá-las.

Ilustração elaborada por Anex Santis exclusivamente para o Fala, Prô!. Cópia, utilização ou distribuição proibida.

Mesmo encontrando formas mais caseiras de brincar (minhas bonecas diriam que algum dia serei uma excelente mãe!), sempre tive essa curiosidade sobre "o que há lá fora?" e, consequentemente, "o que há aqui dentro, que me impede de viver experiências como aquelas?". Então, ao ser convidada para iniciar meus trabalhos como colaboradora do Fala, Prô!, pensei em resgatar a importância dessa curiosidade na minha vida e propor algumas alternativas para educadoras e educadores que querem estimulá-la em crianças ou adolescentes que tenham uma deficiência.

A importância da curiosidade

Aaaah, a curiosidade! Essa nos leva ao infinito, mesmo que seja fisicamente impossível chegar até lá. Ela nasceu com o ser humano e vai acompanhá-lo até o último segundo de vida, e pouco importa se uma deficiência qualquer entrou na jogada. A curiosidade existe em todos nós e proporciona a evolução. E é preciso dizer: muitas vezes, ela está até mais presente na criança que possui uma deficiência, justamente pela quantidade de privações às quais ela é exposta durante sua infância. Se tem uma coisa que eu aprendi na minha jornada de descoberta, com certeza é: para evoluir, é preciso sentir uma porção de coisas, sejam elas boas ou ruins. E, quando nos divertimos no processo, tudo fica mais legal.

28 novembro 2020

Entrevista: Mayara Gonçalves

✎ Por Fernanda Fusco

Fala, professoras e professores! É com muita alegria que anunciamos a chegada da mais nova colaboradora de nosso projeto: a Mayara Gonçalves, que ampliará nossos olhares para a pessoa com deficiência em seus artigos mensais! Nesta entrevista, a especialista em marketing digital e fada-madrinha na Make a Wish Brasil contará pra gente um pouco de sua trajetória e formação, de seus maiores desafios e conquistas, e porque a inclusão é um tema de seu interesse. Vem com a gente!


"Pessoalmente gosto do que me tornei, pois tenho cada vez mais oportunidades de usar minhas habilidades e história de vida a favor, não só de mim, mas de quem precisa." (Mayara Gonçalves)

Seja muito bem-vinda ao Fala, Prô!, Ma! Sobre quais temas você pretende tratar em seus artigos mensais?

Agradeço o convite das queridas do Fala, Prô! É uma honra ter esse espaço e fazer parte da equipe. ❤️Em meus textos pretendo falar sobre questões pertencentes ao mundo das pessoas com deficiência e como elas interagem com tudo que as cerca. A partir daí, minha intenção é convidar as educadoras e educadores a refletirem sobre suas práticas escolares, dando ideias de como estruturá-las segundo as reais necessidades de pessoas que, como eu, convivem com uma deficiência.

Por que o mundo das pessoas com deficiência é um assunto de seu interesse?

O assunto da inclusão e acessibilidade dentro e fora do ambiente escolar faz parte da minha vida, já que nasci com paralisia cerebral e convivo com ela há 29 anos. Nessa trajetória, percebi que existe muita falta de informação, preconceito e um certo "medo" do desconhecido por parte da sociedade dita "normal". Isso acaba conferindo aos PCDs (pessoas com deficiência) lugares inferiorizados aos quais eles não pertencem e nem nunca pertenceram na realidade, mas que a sociedade os coloca por ser mais fácil rotular do que respeitar, acolher e valorizar as particularidades e necessidades de cada ser humano. Então, meu jeito de combater tudo isso é falar sobre minhas vivências e ajudar outras pessoas a construírem um olhar diferente sobre a pessoa com deficiência.


imagem-logo