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27 junho 2017

14 conselhos para novos professores

✎ Por Fernanda Fusco
Voc√™ finalmente concluiu a sua licenciatura: est√° com o seu diploma em m√£os e apto a "comandar" a sua pr√≥pria sala de aula. Seja em escolas particulares ou p√ļblicas, os desafios que enfrentamos s√£o di√°rios, mas ainda maiores quando somos novos na √°rea e com pouca experi√™ncia! Al√©m dos problemas rotineiros e presentes em todas as unidades escolares, a ansiedade e inseguran√ßa tamb√©m nos acompanham no in√≠cio da carreira!

Em um daqueles momentos em que me lembrava do meu primeiro ano enquanto educadora, resolvi lan√ßar no Facebook a seguinte pergunta para os meus amigos professores:

Aproveite e venha deixar o seu comentário também!

Com base nas respostas, nas minhas memórias e antigos registros, elaborei esta lista com alguns conselhos para você que ingressou há pouco tempo!

1. Observe, ouça e aprenda com toda a equipe da unidade

 

√Č comum sairmos da licenciatura carregados de uma certa arrog√Ęncia: por mais que saibamos que a realidade em sala de aula possa ser complicada, achamos que temos todas as respostas e muitas vezes julgamos outros profissionais por cometerem erros que nunca cometer√≠amos (ou que diz√≠amos que nunca ir√≠amos cometer). Essa arrog√Ęncia pode acabar nos isolando e nos cegando em rela√ß√£o √†s coisas boas que acontecem no dia-a-dia da escola!

Meu primeiro conselho √© que abra os olhos, os ouvidos, a cabe√ßa e o cora√ß√£o para as pessoas que fazem a escola ser o que ela √©. Converse at√© mesmo com aqueles profissionais que parecem ter princ√≠pios ou concep√ß√Ķes muito diferentes das suas: acredite, voc√™ vai aprender muito com eles! √Č conversando e entendendo o ponto de vista do outro (mesmo que nem sempre concorde) que superamos tamb√©m muitos de nossos preconceitos: no meu caso, o que mais me marcou foi perceber que nem todo professor antigo √© ultrapassado, estagnado e sem vontade de aprender - inclusive conheci professores com o p√© quase na aposentadoria fazendo o que muito professor novinho n√£o tinha coragem de tentar.

Com o tempo, voc√™ vai finalmente perceber que est√£o todos no mesmo barco e com os mesmos objetivos: cada um tentando alcan√ßar de uma forma, mas o objetivo √© sempre o de construir conhecimentos e desenvolver os seus alunos. Quem sabe tamb√©m n√£o rolam algumas parcerias?

2. Planeje, planeje muito!

  
 
"Cada minuto planejando as atividades que ser√£o propostas garante uma aula muito mais encadeada e tranquila. As crian√ßas sentem quando a aula n√£o foi planejada e o professor est√° apenas "indo com a mar√©" e tendem a reagir da mesma forma: com desinteresse, displic√™ncia, falta de vontade. Com a internet e um pouco de paci√™ncia, √© poss√≠vel encontrar v√°rias ideias criativas e sequencias did√°ticas super ricas que ajudam muito no planejamento. O planejamento a curto e longo prazo possibilita ter um olhar panor√Ęmico sobre de onde estamos partindo e onde pretendemos chegar. Enfim, √© um tempo muito bem gasto, e embora pare√ßa muito dif√≠cil no in√≠cio da vida docente, a pr√°tica vai se tornando cada vez mais √°gil com a experi√™ncia." Conselho da professora Ekatherina Ugnivenko!

3. Vá com calma: você tem todo o tempo do mundo para treinar suas práticas!

 
O circo pegando fogo e eu preocupada em dar conta de tudo

Algo que estou aprendendo a controlar nos √ļltimos anos √© a ansiedade: s√£o tantas as ideias fervilhando na minha cabe√ßa que me entriste√ßo quando n√£o coloco em pr√°tica algumas delas ou n√£o concluo exatamente como planejei. Os planejamentos e cronogramas s√£o ferramentas de apoio ao nosso trabalho, que nos ajudam em nossa organiza√ß√£o, mas nos restringirmos a eles pode tamb√©m ser um problema: com a minha primeira turma, lembro de ficar muito frustrada cada vez que n√£o conseguia concluir a rotina di√°ria exatamente como planejei, mesmo ningu√©m me cobrando sobre isso! Al√©m disso, √© muito importante perceber as necessidades e os interesses dos alunos e fazer adapta√ß√Ķes. Nem sempre concluiremos alguma ideia da forma como gostar√≠amos, mas tenha a certeza de que foi o melhor que conseguiu fazer dentro das suas possibilidades! Voc√™ ter√° muitos anos pela frente para tentar de novo...

4. Não deixe a educação ser a prioridade da sua vida

 
Dando um tempo pra mim!
 
Lembre-se sempre desta triste realidade: para o mercado de trabalho, infelizmente, voc√™ √© apenas um n√ļmero! Por mais que voc√™ se esforce, que doe o seu melhor todos os dias, sempre haver√° algu√©m para te substituir! N√£o se sinta culpado quando precisar ficar em casa por ficar doente ou ter qualquer outra necessidade pessoal. Coloque-se sempre em primeiro lugar! Por mais apaixonado que voc√™ seja pela educa√ß√£o, cuide de sua sa√ļde f√≠sica e mental, cultive hobbies, tenha tamb√©m amigos "n√£o-professores", e desligue-se da √°rea nos momentos certos!

5. Abra sempre portas para outros caminhos


Sai da frente que eu t√ī passando!

No in√≠cio, pensamos que encontramos o caminho certo e que sempre estaremos realizados enquanto professores. Embora a sua empolga√ß√£o com a √°rea nem sempre √© apenas passageira (vide professores com 25 anos ou mais de carreira que ainda amam ensinar), √© importante pensar desde sempre em um plano B. Se voc√™ n√£o fosse professor, o que gostaria de ser? Fa√ßa cursos relacionados a outras √°reas, pesquise, desenvolva novas habilidade, converse com outros profissionais. Mesmo que n√£o atue em outra √°rea, quando se sentir sem ch√£o enquanto educador voc√™ sabe que pode sempre seguir por outro caminho! No ano passado, por exemplo, quando eu estava desacreditando de tudo, aprendi a fazer artesanato (por recomenda√ß√£o do meu m√©dico). As pe√ßas que confeccionei eu passei a vender na minha loja virtual: isso me deu mais seguran√ßa e me fez enxergar outras perspectivas.

6. Empodere e acredite em seus alunos

 
Vai lá, amigão! Você consegue!

Quando ingressei na Prefeitura e passei a trabalhar em uma escola a cinco minutos de casa, uma ex-colega me parabenizou e disse: "Acho ótimo que você tenha crescido e estudado no mesmo bairro que seus alunos. Muitas vezes quem vem de fora acaba enxergando-os como pobrezinhos, coitadinhos..." Mesmo que não sejam da mesma realidade que a sua, independente do bairro onde moram ou condição social, não encare seus alunos como seres incapazes, passivos, dependentes. Acredite em suas possibilidades: toda pessoa é capaz! Infelizmente nem todos tiveram vivências e oportunidades parecidas com as suas, mas você pode fazer toda a diferença mostrando outros caminhos, vendo-os como seres pensantes, identificando e aprimorando suas inteligências. Aquele cara que tem problemas com alfabetização pode ser um ótimo artista, por exemplo! Valorizando esta qualidade, ele pode se sentir motivado em continuar aprendendo.
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7. Avalie-se todos os dias

  

Reserve um tempo do seu dia para refletir acerca das suas pr√°ticas. Pense tanto nos pontos positivos, para continuar acertando, como nos pontos negativos. Pode ter certeza: os erros ser√£o muitos! O importante √© reconhec√™-los e tentar melhorar a cada dia, tentando agir de uma forma diferente nas pr√≥xima vezes. Use esses erros como ponto de partida para novas pesquisas: procure por textos relacionados, pergunte aos seus colegas o que fariam neste tipo de situa√ß√£o, entre outras resolu√ß√Ķes.

8. Você não vai salvar o mundo

 

No meu √ļltimo semestre da gradua√ß√£o, em uma disciplina intitulada Profiss√£o Docente (ou algo similar), lembro de uma frase que minha professora Helo√≠sa Aguiar disse e que me marcou: "voc√™s n√£o v√£o fazer milagre!". Sempre quando enfrento algum tipo de problema na escola, repito para mim como uma esp√©cie de mantra, e isso me faz colocar os p√©s no ch√£o!

Ser√£o diversos os tipos de desafios que voc√™ enfrentar√° ao longo dos anos: casos de neglig√™ncia por parte da fam√≠lia, alunos que testam diariamente a sua paci√™ncia, crian√ßas com problemas de aprendizagem ou necessidades especiais, e falta de parceria com a comunidade e com alguns colegas s√£o apenas alguns exemplos.  O problema √© este: criar muitas expectativas para algo que n√£o depende apenas de voc√™, mas de todo um contexto social e pol√≠tico, de recursos dispon√≠veis, de parcerias, de tempo, de uma quantidade menor de alunos por sala... Procure sempre fazer o melhor dentro das suas possibilidades, mas n√£o se esque√ßa que nem todas a√ß√Ķes, para terem sucesso, dependem apenas de voc√™!

9. Delimite as suas responsabilidades e aprenda a dizer "n√£o"


Cansei, Carlos Eduardo! #beijofui
√Č claro que existe um contrato, estatuto ou qualquer outro tipo de documento que delimita os seus deveres: guie-se a partir deles! Mas n√£o abrace o mundo com as pernas, como sempre aconselhou o meu pai. Pode ser que se sinta muito motivado ap√≥s uma leitura, um feedback, um curso, uma reuni√£o pedag√≥gica... Nestes momentos de energia alta, evite fazer muitos planos e promessas. Acontece que tudo isso pode se acumular como uma bola de neve e no final de algum per√≠odo (bimestre, semestre, ano) voc√™ se arrependa por ter se envolvido exageradamente, n√£o consiga conclui-los e desempenhe um trabalho de baixa qualidade. Mesmo que consiga fazer, a sua sa√ļde e tempo livre estar√£o comprometidos.

N√£o √© nem um pouco indelicado dizer "n√£o" quando a cobran√ßa vem de fora (de voc√™). Se √© algo que os seus pares concordam tamb√©m em n√£o fazer porque sabem que n√£o dar√£o conta, re√ļnam-se, conversem com a gest√£o escolar, justifiquem-se, procurem outras solu√ß√Ķes coletivamente e at√© o sindicato, caso necess√°rio.

10. O que acontece na escola, fica na escola!

 

Vamos combinar que n√£o existe uma chave para nos conectarmos e desconectarmos dos nossos problemas: √© t√£o dif√≠cil trabalhar bem quando estamos com algum problema em casa, com a fam√≠lia, como o contr√°rio. Da porta da escola pra fora, n√£o √© poss√≠vel arrancar a nossa pele de educador - veja, por exemplo, quando a gente est√° passeando e encontra algum material interessante, que remete a determinado conte√ļdo e traz ideias de pr√°ticas. No entanto, podemos nos educar para n√£o carregarmos problemas desnecess√°rios, algumas vezes sem solu√ß√£o e que acabam com a nossa sa√ļde, para a nossa vida pessoal: para aqueles que n√£o valem a aten√ß√£o, procuro me distrair de outras formas, como atrav√©s dos meus hobbies, por exemplo. √Č super v√°lido procurar um amigo para desabafar ou at√© um psicoterapeuta para nos ajudar a lidar com tudo isso!
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11. Pense na sua realidade e adapte a teoria à sua prática

 
Voil√°!

Desde quando cursava Pedagogia, sempre ouvi a frase: "Na teoria √© uma coisa. Na pr√°tica, outra!". √Č comum nos frustrarmos por tentar colocar em pr√°tica alguma experi√™ncia baseada nos livros ou artigos que lemos, esperar determinado comportamento ou envolvimento dos alunos e de toda a comunidade escolar, e no final acontecer de tudo, menos o que idealizamos.

Normalmente as teorias da educa√ß√£o foram baseadas em pesquisas realizadas a partir de realidades diferentes da nossa, mas n√£o significa que n√£o funcione se n√£o fizermos as adapta√ß√Ķes adequadas. Vamos pensar, por exemplo, na psicog√™nese da l√≠ngua escrita de Em√≠lia Ferreiro: fizemos a sondagem com todas a turma, identificamos que cada crian√ßa est√° em um n√≠vel diferente de leitura e escrita e agora precisamos dar uma aten√ß√£o maior para aqueles que s√£o pr√©-sil√°bicos, mas n√£o temos tempo h√°bil pra isso. Comece pensando na sua realidade e qual a sua prioridade no momento: nem sempre voc√™ vai conseguir dar aten√ß√£o exclusiva √†queles que necessitam, mas voc√™ pode organizar atividades espor√°dicas em sua rotina que contemplem os mesmos conte√ļdos com a turma toda e direcionar de forma diferente a cada aluno: os alunos podem fazer uma cruzadinha; enquanto os alfab√©ticos fazem sozinhos, os sil√°bicos fazem com o auxilio de um banco de palavras, e voc√™ pode dar aquela aten√ß√£o especial aos pr√©-sil√°bicos (ou a apenas um aluno por dia, mesmo que seja por 15 minutinhos). N√£o conseguiu? N√£o desanime! O importante √© continuar tentando, estudando e adaptando da melhor forma que puder!
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12. Foque nos seus acertos


Toca aqui, sista!

Quando parecer que voc√™ est√° sem ch√£o, quando parecer que nada tem solu√ß√£o, pense em todo o seu percurso e lembre-se de tudo o que fez e que j√° deu certo! Eu concordo que √© desanimador pensar que mesmo com todas as interven√ß√Ķes que proporcionou, tr√™s de seus alunos ainda n√£o s√£o alfabetizados; mas j√° parou para pensar nos outros trinta e dois que j√° est√£o lendo gra√ßas √† sua dedica√ß√£o? J√° parou para pensar que mesmo em uma sala de aula que parece n√£o aproveitar nada do que voc√™ tem a oferecer tem aquele aluno que voc√™ inspirou?
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13. Acredite na educação e deixe a utopia te mover

 

Pouco antes de come√ßar a cursar Pedagogia, quando ainda digeria a ideia, tinha aquele pensamento ut√≥pico de ingressar na rede p√ļblica e fazer a diferen√ßa construindo uma educa√ß√£o de qualidade. De certa forma, √© esta utopia que me move e me mant√©m na √°rea: embora eu tenha plena convic√ß√£o de que n√£o consigo atingir a todos, mesmo que eu fa√ßa a diferen√ßa para um dos meus vinte e dois alunos anuais (e que, enquanto professora de inform√°tica, chegava a uns quatrocentos) eu j√° me sinto realizada!

14. Fuja de profissionais frustrados


VALEUFALOU

Okay, já aprendemos que é preciso construir um ambiente de diálogo, compreensão e tentar parcerias com nossos pares: mas nem sempre há pessoas ali prontas para somar e multiplicar! Com o convívio frequente, existem pessoas que sugam nossas energias e conseguem nos colocar pra baixo até mesmo com um simples comentário. Se perceber que não está te fazendo bem, evite contato! Seja educado como se deve ser, é claro, mas tente relevar. E, no seu ambiente de trabalho, procure se cercar de pessoas otimistas e que, assim como você, também acreditam na educação!

Confesso que, mesmo com oito anos de magistério, me senti bastante confortada ao ler os comentários e escrever esta publicação. Espero que nós tenhamos te ajudado de alguma forma! E nunca se esqueça: você não está sozinho! =)

2 coment√°rios:

  1. Bela reflexão, professora! Seria legal promover encontros presenciais e discutir um texto como esse! São tantos detalhes na vida profissional a que não damos atenção. Um trabalho assim de recolher depoimentos e pensar a respeito deles é fundamental!

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    1. Obrigada pelo comentário, professora querida! <3 Sabe que nunca havia parado pra pensar sistematicamente nesses detalhes? Só depois que parei pra escrever que vi quanta coisa a gente precisa refletir a respeito... O legal é que serviu para me motivar tb!

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